A noite do último dia 20 caiu com suavidade sobre a Rua Liberdade, em Pirapora-MG, mas dentro do Ilê Axé Odejun Queá, o tempo era sagrado. Em meio aos atabaques, cantigas ancestrais e o perfume de ervas sagradas, quatro filhos de santo receberam seus nomes sagrados – um momento de profunda emoção, fé e pertencimento que ecoou pela cidade de Pirapora.
Marcelo de Osoguian, Paolla de Osum, Vanessa de Sango e Rodrigo de Aira foram os protagonistas de um ritual que ultrapassa o gesto religioso. O Orunko – cerimônia que marca a consagração do nome espiritual dos iniciados – não é apenas um batismo simbólico. É um renascimento. É o reconhecimento da ancestralidade que pulsa no sangue e na alma.
Sob a liderança espiritual do Babalorixá Ribamar de Ọ̀ṣọ́sẹ̀ e da Yalorixá Rosinalva de Yemanjá, o terreiro se transformou em um santuário de resistência, amor e celebração da cultura afro-brasileira. Para Ribamar Veleda, cada ritual realizado é um gesto de afirmação. “É um momento de renovar a fé, afirmar nossa identidade e reforçar o respeito às nossas raízes”, afirmou o Babalorixá, visivelmente emocionado.
Com décadas de dedicação à espiritualidade, Ribamar se tornou uma referência não apenas em Goiás, onde mantém seu templo em Valparaíso, mas em todo o país. Sua atuação vai além dos ritos: ele acolhe, orienta e cria pontes entre as tradições e a comunidade. Em Minas Gerais, sua presença tem sido um alicerce para a valorização das religiões de matrizes africanas, muitas vezes invisibilizadas ou marginalizadas.
O terreiro em Pirapora, que já é um símbolo de resistência cultural, testemunhou uma noite inesquecível. Amigos, adeptos e simpatizantes se reuniram em clima de paz e reverência, celebrando não apenas os novos nomes, mas o direito de existir com dignidade, com fé e com identidade.
“Esse momento é nosso. É da nossa história. É da nossa luta”, comentou uma das participantes, com lágrimas nos olhos, enquanto os Yaôs – recém-renomeados – dançavam, vestindo seus trajes sagrados, com a força e a graça herdadas dos Orixás.
O Ilê Axé Odejun Queá se reafirma, mais uma vez, como muito mais que um espaço religioso. É um território de memória viva, de ensinamento, de união. E, principalmente, de resistência espiritual num Brasil que ainda caminha rumo ao respeito pleno à diversidade religiosa.
A cerimônia de Orunko de 2025 entra para a história de Pirapora como um marco de fé e tradição. E também como um grito silencioso, porém poderoso: a ancestralidade vive, resiste e ilumina.
















































